Por: Diario Digital Castelo Branco/Lusa
O interior precisa mais de empregos do que de autarquias para combater o despovoamento, consideram especialista contactados pela Lusa, que admitem que a extinção de alguns destes organismos precisa de consenso porque vai mexer com a identidade das pessoas.
O interior precisa mais de empregos do que de autarquias para combater o despovoamento, consideram especialista contactados pela Lusa, que admitem que a extinção de alguns destes organismos precisa de consenso porque vai mexer com a identidade das pessoas.
“A única hipótese para combater a desertificação é levar à fixação de pessoas no mundo rural, o que passa pela criação de empregos nos pequenos centros. E a única possibilidade que vejo implica relançar a agricultura, até porque estamos altamente carenciados de produtos alimentares, a pecuária, que foi completamente desmantelada após a adesão à EU, e alguma atividade industrial ligada à floresta e à transformação de produtos que as pessoas consomem a nível local”, considerou José Ramos Pires Manso, responsável pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior (UBI).
O professor universitário sugere uma aposta em produtos de qualidade, como os ago-biológicos, e ainda que poderia ser aproveitado algum dinamismo que o setor social está a ter nestes locais devido à grande concentração de idosos, para se criarem alguns postos de trabalho e ajudar as pessoas a fixarem-se nestes locais.
“Fora disso não é fácil. Pagar às pessoas para que abandonem a agricultura e abandonem a pecuária, é evidente que não é solução para que as pessoas se fixem aí”, realçou.
Para Pires Manso, é “mais do que normal e desejável” que algumas freguesias acabem, principalmente no caso das que são muito pequenas ou estão perto umas das outras, mas isso “só vai ser sentido pelos próprios autarcas que vão deixar de receber recursos”, sem ter “reflexos em termos de agravamento das condições de vida, da precariedade e até da desertificação”.
O que deverá acontecer será o atiçar de algumas rivalidades antigas entre freguesias e até municípios vizinhos, que terão de se habituar a viver juntos, acrescentou.
Fernando Ruivo, do Observatório do Poder Local, salienta que Portugal tenta reformar o poder local desde o século XIX, mas estas reformas têm falhado sempre porque é muito perigoso mexer no território sem existir um consenso, porque isso mexe com as identidades.
“As pessoas no interior já não têm escola, não têm acesso à saúde, já não têm empregos, já não têm, em muitos casos, acesso à justiça e a uma data de serviços. Se lhes tiram a identidade institucional, em que eles se reconhecem, tiram-lhes tudo”, salientou.
Este investigador afirma que faltam estudos para realizar uma reforma como deve ser dentro dos prazos previstos e que nem sequer foram ouvidas as populações.
“Ainda por cima num processo em que há uma certa imposição externa por parte da ‘troika’, isso ainda vai piorar a reacção negativa das pessoas”, considerou.
Considera que não é o encerramento de autarquias por si que causa desertificação, porque, “se encerram municípios no interior, também encerram municípios no litoral”.
“É evidente que nalguns casos pode acentuar a interioridade, mas noutros até pode ser positivo. Mas só acentua a interioridade se, quando for avante, se anularem determinados serviços, como escolas, a farmácia e o acesso à saúde, pois aí é que as pessoas ficam prejudicadas”, salientou.
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