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Região 19 de fevereiro de 2026

Porque é que tantos líderes políticos portugueses têm raízes no distrito de Castelo Branco?

Por: Diário Digital Castelo Branco

O distrito de Castelo Branco contribuiu com mais governantes para o topo do Estado do que o distrito do Porto, apesar de ser uma terra isolada e de pobreza antiga. Como é que é possível?

Rodrigo Tavares, Professor catedrático convidado na Nova SBE, escreve no jornal Expresso que "Se analisarmos o local de nascimento e, nalguns casos, as origens familiares dos 23 portugueses que exerceram funções de chefe de Estado ou chefe de Governo desde o 25 de Abril, a Beira Baixa surge como a região mais representada a seguir à Estremadura (Lisboa).

No total, nove governantes são oriundos do concelho de Lisboa — Mário Soares, Jorge Sampaio, Marcelo Rebelo de Sousa, Vasco Gonçalves, Alfredo Nobre da Costa, Pinto Balsemão, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e António Costa. A Beira Baixa reúne quatro nomes — Ramalho Eanes, António Guterres, José Sócrates e António José Seguro. Incluo aqui os socialistas Guterres e Sócrates porque, embora não tenham nascido no distrito de Castelo Branco, por lá passou uma parte relevante do seu percurso e/ou têm ligações familiares a essa região. Todas as outras macrorregiões têm, no máximo, dois governantes, incluindo o distrito do Porto (Sá Carneiro e Luís Montenegro).

É um feito notável, uma anomalia política difícil de explicar. Porque é que uma das regiões mais pobres do país produz tantos líderes políticos?

Uma hipótese é que a pobreza é condição, não exceção. Historicamente, é uma região de não-gentes, apagadas dos mapas da atenção da capital. Recortada por montanhas escarpadas (Gardunha, Estrela, Talhadas, Malcata, Muradal) e rios apartadores (Zêzere, Tejo, Ocreza, Ponsul, Erges) e enroupada por um manto de pinheiros-bravos, a infraestrutura pública da Coroa chegou mais tarde à Beira Baixa do que a qualquer outra região. Estradas, pontes e caminho-de-ferro foram construídos, como quem atira umas moedas aos provincianos, só há pouco mais de 100 anos. Ao contrário de outras regiões, por ali não há vestígios de palácios da família real, hospitais termais fundados por rainhas ou coutadas e tapadas da nobreza. O saneamento básico chegou à aldeia dos meus avós quando eu já sabia soletrar a palavra autoclismo.

A Beira estava tão afastada do mundo que a Serra da Estrela, terra de pastores nómadas, foi alvo de uma Expedição Científica em 1881 pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Foi coliderada por Hermenegildo Capelo, que anos antes tinha ganho notoriedade pelas suas expedições em África. A Coroa conheceu os seus confins antes das suas entranhas

A região baseava-se numa lavoura de subsistência em nesgas de terra magra, um clima áspero, onde o calor queima e o frio fere, e em técnicas agrícolas manuais dependentes do calendário lunar. A miséria perpetuava-se fora do olhar de Lisboa. Até à primeira metade do século XX, a organização social na região apresentava fortes disparidades, com grande parte da população, descalça e sem saber ler, a viver no limiar da subsistência. A partir dos anos 50 e 60, a situação de atraso endémico levou a uma onda de emigração massiva, muitas vezes clandestina e a pé, transformando a demografia e a economia local. Uma parte da população descende de “ratinhos”, uma prática histórica de servidão. Eram trabalhadores rurais sazonais que desciam a pé para as grandes campanhas agrícolas no Alentejo, como a ceifa e a monda. Eram chamados pejorativamente de “ratinhos” porque iam atrás de comida. Escrevi sobre isto quando entrevistei para o Expresso jovens beirões que falam o dialeto local dos Montes da Senhora ou quando retratei a vida de centenas de aldeias com dezenas de pessoas.

Na Beira também havia várias Rodas dos Expostos ou Rodas dos Enjeitados, um mecanismo cilíndrico, de madeira, disponível nas Misericórdias e hospitais onde se deixavam recém-nascidos de forma anónima, para ficarem ao cuidado da instituição. Funcionaram em dezenas de localidades beirãs até ao início do século XX, bem depois de terem sido formalmente extintas por decreto em 1866. O bisavô do novo Presidente da República foi deixado, em bebé, na Roda dos Expostos de Castelo Branco e batizado como “Manuel dos Anjos”.

Uma vida de indigência incentivava a fuga. É interessante que na galeria dos notáveis beirões, a maioria fez o nome fora, a explorar o mundo, a procurar sustento ou conhecimento. Pedro Álvares Cabral, Pêro da Covilhã, Afonso de Paiva, Amato Lusitano (João Rodrigues), Eugénio de Andrade, Manuel Cargaleiro são filhos de uma cultura de partida, transmitida entre gerações.

A Casa das Memórias António Guterres, situada na aldeia onde nasceu a sua mãe, recebe-nos logo à entrada com o dístico “Das Donas para o Mundo”. O espaço foi inaugurado em 2017 por Paulo Fernandes, então presidente da câmara do Fundão. A depressão Kristin deu ao autarca uma visibilidade súbita. É outro beirão que poderá ter destaque na política nacional (o cargo de Ministro da Administração Interna ainda está livre?).

Há uma outra hipótese para explicar a anomalia política com que abri este artigo. A Beira, tal como outras zonas interioranas, sempre teve uma aristocracia miúda de vila, composta pelos mesmos núcleos heptagonais: pároco, professor primário, juiz, regedor, médico, advogado e soldado. Eram as figuras de autoridade. Ainda hoje este mecanismo local de reprodução de elites existe. Casam-se entre si, fazem alianças, disputam a presidência da junta, a mesa da Misericórdia, a direção dos bombeiros, os lugares na comissão da festa. Governam-se por favores, por pequenos gestos de reconhecimento, por deferências públicas. São quem trouxe um diploma de Coimbra, vive no solar senhorial da aldeia, gosta de se reconhecer em Jacinto de Tormes e se senta na primeira fila da missa. Numa Beira marcada pela carência, estas elites rurais tornaram-se maiores do que elas próprias. Não se deixam comparar ou questionar. E algumas delas nacionalizaram-se.

Na minha teia familiar há um bispo beirão, nascido na pobreza, que foi promovido à elite diocesana do império apesar de ter engravidado várias mulheres por onde missionou. Nunca foi punido. Todos sabem, mas ninguém sabe. Está sepultado numa catedral. O pároco é um dos lados do polígono.

Ramalho Eanes veio de origens modestas, mas construiu a sua autoridade ao seguir a carreira militar. O soldado é outro dos lados da figura geométrica. Eduardo Marçal Grilo, Valter Lemos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Catarino, Pedro Roseta, Joaquim Alberto da Cruz e Silva (falecido há poucas semanas) são outros exemplos de ministros ou secretários de estado ligados à Beira Baixa.

O que surpreende não é que a Beira Baixa tenha líderes. O que talvez surpreenda é que muitos dos líderes atuais não conheçam a Beira Baixa.

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