Por: Diário Digital Castelo Branco
A ópera “Ti Chitas – a voz que é uma montanha” estreia-se no dia 26, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, como um estudo sobre o canto que resulta da investigação feita pela compositora e etnomusicóloga Teresa Gentil.
Em declarações à agência Lusa, Teresa Gentil afirmou que esta ópera “é um estudo sobre o próprio canto, apesar de haver também amores e desamores, em todo o processo”.
A ópera, que estará em cena até 01 de março, centra-se na figura de Ti Chitas, nome pelo qual ficou conhecida Catarina Sargenta (1913-2003), pastora, cantora e tocadora de adufe de Penha Garcia, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco.
A entrevista que concedeu ao etnomusicólogo Michel Giacometti serviu de guia para esta ópera, que aborda não só o seu legado, mas também o Cancioneiro Popular Português.
Gentil disse que, desde que iniciou a investigação, pretendia fazer um trabalho artístico em torno da voz de Ti Chitas, que foi gravada pelos etnomusicólogos José Veiga de Oliveira e Michel Giacometti, e que chegou a criar um álbum com a Banda do Casaco. Uma voz que vai ser possível recordar na ópera.
Em alguns momentos, a voz de Ti Chitas vai ser acompanhada pela Orquestra Barroca D’Aquém Mar, e também pelos cantores, “aliás tudo o que vai acontecer de algo, no espetáculo, é a partir da voz da Ti Chitas”.
Teresa Gentil referiu que “a afinação da orquestra barroca não é temperada como acontece com os instrumentos hoje em dia, e adapta-se muito bem a este tipo de canto, livre, pois a Ti Chitas tem uma ‘afinação natural’ por assim dizer, não tinha nenhum instrumento a acompanhá-la”.
Para a compositora, é “um cruzamento muito feliz, o da voz da Chitas com a orquestra barroca, pois são instrumentos que permitem uma fluidez de afinação que os instrumentos mais modernos não permitem, e é de facto muito interessante”.
A ópera inclui ainda música eletroacústica e eletrónica preparadas pela compositora Sara Ross.
No palco do Pequeno Auditório do CCB, a ópera vai ser apresentada em “várias dimensões”: uma visual, com projeção de imagens de Penha Garcia, pelo artista visual João Gambino, e outra em palco, onde vai estar o ensemble barroco da Orquestra D’Aquém Mar, sob a direção musical do maestro Pedro Castro, assim como a soprano Patrícia Modesto e o contratenor António Lourenço Menezes, sendo a encenação de Teresa Gentil e Lander Patrick.
O repertório que vai ser apresentado, e que faz parte de uma narrativa, “descreve o percurso do berço até à morte, na prática, havia músicas para todos os momentos da vida, e o espetáculo segue um pouco esse percurso do Cancioneiro Popular Português”.
A compositora realçou a entrevista feita a Ti Chitas, por Giacometti, que se conserva no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa.
“Uma entrevista muito longa”, dada numa altura “em que já havia muita confiança entre os dois” e nela “conta, quase em tom confessional, muitos aspetos da sua vida, a dureza da vida na serra, todos os momentos desafiantes que ela teve, como mulher do campo, pobre, analfabeta”.
Gentil – que assina o libreto - usou dados desta entrevista, “quase autobiográfica”, para fazer uma narrativa sobre Ti Chitas.
“Não é uma coisa óbvia, é muito mais pelo lado poético, do que literal ou narrativo, mas os momentos da vida dela cruzam-se com as canções do Cancioneiro, as canções do nascimento, do trabalho, as de tristeza, os romances, a maneira de contar histórias”, acrescentou.
Paralelamente, orientada pelo músico e investigador Rui Silva, vai decorrer de 26 a 28 deste mês no espaço da Fábrica das Artes, no CCB, uma oficina de adufe.
Teresa Gentil apresentou um trabalho sobre a voz de Ti Chitas, no âmbito do seu mestrado, “há mais de dez anos”, e doutorou-se em Ciências Musicais, na especialidade de Etnomusicologia, no ano passado, na Universidade Nova de Lisboa com uma tese sobre a voz de Amália Rodrigues.
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