Por: Diario Digital Castelo Branco/Lusa
“Uma das coisas que Siza Vieira (o outro arquiteto português vencedor do Pritzker) diz é que a primeira condição para ganhar prémios é não pensar neles. E, portanto, eu nunca esperei ganhar o Pritzker”, disse Souto de Moura na segunda-feira à noite, em conferência de imprensa, num hotel de Lisboa.
“Se mo deram a mim, não é por ser excecional. Eu adivinho que, com a crise internacional, a crise económica, os arquitetos excecionais não vão ter grande futuro, porque acabou um certo estrelato na arquitetura”, disse.
Sublinhando tratar-se de uma interpretação sua, “porque o júri foi unânime” e não conhece lá “ninguém pessoalmente”, o arquiteto considerou “que tem algum significado esta entrega a um arquiteto português”.
“Porque é um prémio americano, que entregam à Europa, que entregam ao país mais marginal da Europa, e talvez ao menos vistoso dos arquitetos portugueses, talvez dos mais sóbrios, por uma questão de formação, que defende quase a arquitetura anónima – bem feita, mas quase anónima -, a arquitetura simples, objetiva e pouco narrativa”, argumentou.
Sobre as consequências deste prémio, Souto de Moura observou: “Para mim, é muito bom, porque estava muito preocupado com a minha atividade de arquiteto [no atelier de Lisboa emprega 10 arquitetos e no do Porto 35]. Praticamente, só trabalho lá fora (…) e assim vai haver mais trabalho”.
Mas frisou: “Onde eu gosto mais de construir é aqui em Portugal, constrói-se bem (…) mas por mais boa vontade que haja não há investimento público”.
Em Portugal, o arquiteto gostaria de acabar as suas obras: “Está tudo parado por falta de verbas”, observou.
E deu alguns exemplos, como o Centro Cultural de Viana do Castelo, o metro do Porto – que “é um sucesso em termos de público” mas que gostaria que tivesse “uma segunda fase” - e, por último, um convento em Tavira, também por concluir.
Sustentou ainda que o facto de ter sido um português a ganhar o Pritzker pode ser benéfico para “o futuro dos escritórios de arquitetura em Portugal”, porque, neste momento, “não há emprego, está tudo a emigrar”.
“Temos bons arquitetos e a chamada geração à rasca está mesmo à rasca, está mesmo a sair [do país]. E não há para onde ir… Neste momento, os únicos sítios para onde os arquitetos jovens e sem ser jovens – da minha idade, cinquenta e tal – estão a ir é para a Suíça, porque a Europa não está famosa, e para o Brasil”, comentou.
Se tivesse de destacar só uma das suas obras, escolheria o estádio de Braga, porque foi feita “no momento certo, no sítio certo”.
Quanto às características que definem o seu estilo, Souto de Moura diz que este “transporta as tradições da arquitetura”.
“Eu não acredito em saltos epistemológicos nem em invenções. Aliás, a imaginação é uma coisa perigosa na arquitetura. Acho que é preciso trabalho e há uma evolução e a arquitetura tem de ter um sentido de continuidade, tem de pegar na tradição e usar os meios atuais para ser melhor”, defendeu.
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